Páscoa vem de passagem.

Passagens interrompidas cheiram a escravidão. Páscoa é liberdade.

Passagens enterradas cheiram a morte. Páscoa é vida.

Foi assim nos idos de antigamente, quando um povo sonhava em sair de uma terra onde eram tratados com indignidades para experimentar, mesmo que no deserto, a sensação de irmandade. Os irmãos não se escravizam uns aos outros.

Foi assim, também, nos dias de Jesus. Pregaram na cruz o Pregador do Amor. O que houve? Não era Ele que curava os que de cura precisavam, que abraçava os que ninguém abraçava, que olhava com os olhos de amanhecer? Os paralíticos andavam, os leprosos sentiam-se acolhidos, os desesperançados amanheciam. Então, que mal fez Ele? Por que os gritos de "crucifica-o" abafaram as canções de liberdade? Escravos de opiniões alheias, afogados nos ódios dissipados por aqueles que tinham medo de perder algum poder, já não sabiam o que faziam.

E é assim, do alto da dor, que diz Jesus: "Pai, perdoa-os, eles não sabem o que fazem". E não sabiam mesmo. E não sabemos nós quando optamos por tudo o que nos restringe a liberdade ou a vida.

Os tempos são outros, mas as algemas persistem a nos enganar. Desconhecemos a passagem necessária que nos leva à montanha sagrada, que nos permite ouvir o sermão da humildade. Lá, em uma relva suave, os sentimentos poderiam ser suavizados. O Galileu falava de amor e de humildade, de perseguições e de justiça, de engodo e de verdade. É a verdade que nos liberta. Mas o que é a verdade? Como encontrá-la? Talvez esteja ela naquele ferido que aguarda alguém que desça de onde estiver e que dele cuide. Foi assim que Ele explicou quando falou da vida que não se encerra, quando desenhou a face do próximo. O bom samaritano. O próximo é quem cuida de mim. O amor ao próximo é o que me revela a verdade mais sagrada, a tal liberdade.

Helena nasceu um dia antes do aniversário de seu pai.

Bruno, pai de Helena, morreu um dia antes do nascimento da sua filha. Ele queria muito ter vivido um pouco mais. Não dependeu dele. O irmão, com os olhos marejados, apenas disse: "Não é justo!".

A mãe de Helena, Paula, lindamente grávida, acariciava a vida que estava chegando, enquanto chorava a vida que estava partindo.

O sol arrebentava a rotina. Na casa da família, num interior deste país tão grande, os amigos iam chegando. É assim o despedir. Alguns ensaiam algumas tentativas mais ousadas de espantar a dor, brincado de entreter; outros, repetem antigas e respeitosas fórmulas, "Meus sentimentos". Na televisão, passava um jogo de futebol. Um ou outro comentário. Bruno era corinthiano. E agora?

Sentimentos jorravam como cachoeiras naquela casa. Lembranças de outros tempos. O irmão falava da mãe de ambos, que partira prematura; na mesma idade que o irmão agora partia, 27 anos. "Cedo demais". Também foi em um mês de março. O mês das águas que encerram o verão, dizia o poeta, cantava o cantador.

A dor estava ali naqueles olhares distantes, e eles tentando agarrar o que era possível para prosseguirem. Era preciso prosseguir. Helena ainda estava chegando. A semente de Bruno fora plantada. E o milagre do nascimento inauguraria novos tempos. E a alegria da criança haveria de semear outros marços, maios, novembros e assim por diante. Mas por que o câncer foi mais forte que o desejo de ver a filha nascer? Mas por que existe o câncer? Ou a morte? Ou a separação? Por que não sabemos o que há depois? Será que o Bruno está vendo a filha nascer? Será que está sorrindo? Será que conseguirá protegê-la, agora que vive mais perto da Luz? Será que a mãe de Arthur e de Bruno conseguiu fazer o mesmo? Será que a mãe de Bruno foi ao seu encontro para recebê-lo em sua nova condição? Estão juntos? Arthur prossegue. Na arte de e ncontrar o passo certo. Os que amou desde cedo já foram. Mas ainda é cedo para desistir do amor. Entre lágrimas e decisões, as expressões de amanhãs permanecem. Sim, é vida que segue.

Amigos se aquinhoavam buscando explicações. Mistérios não podem ser explicados. Há tentativas, há inspirações, há ditos que consolam, que religam. Mas a dor é a dor, e a sua pujança desafia explicações. A dor daquela família desafiava o sol daquele dia. Em força. Em intensidade. Isso no dia da despedida de Bruno.

Dizem alguns especialistas que o chá de hibisco faz bem, se for consumido de forma moderada. É um termogênico, que melhora a circulação. Ajuda na digestão e impede parte da absorção da gordura pelo organismo. E há tantos outros argumentos que fazem com que algumas pessoas profetizem futuros mais magros.

Márcia e Suzana foram ao shopping. Fazer compras. Suzana é uma amiga e tanto. É presente como se faz necessário ao convívio da amizade. É compreensiva quando a situação assim o exige. E sabe ouvir, o que é fundamental para quem acredita no exercício do amor. Pois bem, Márcia gosta de falar. Fala sem economias sobre os mais variados assuntos. E agora, o assunto predileto é o tal chá de hibisco.

Antes das compras, Márcia cismou que, como vai perder uma quantidade impressionante de quilos, era prudente comprar roupas menores. Suzana argumentou que era melhor esperar o tal emagrecimento. E depois comprariam. Márcia disse que não. Que era impossível não se despedir dos quilos que a incomodavam depois da descoberta do século, o chá de hibisco.

Foram as duas. Antes das lojas, sentaram-se em um café cujo aroma convidava para uma prosa. O atendente veio sorridente tirar o pedido. Suzana pediu um café e uma água com gás. Márcia estranhou, "Só isso?". Suzana relembrou, "Acabamos de almoçar". Márcia olhou para o relógio e não comentou a explicação da amiga. "Quero dois pães de queijo, uma empadinha de palmito que só vocês sabem fazer e um café com adoçante". O moço já se preparava para ir resolver os pedidos, quando Márcia prosseguiu "Humm, me deu vontade de comer um pedaço pequeno de baguete com manteiga". Suzana apenas olhou. O atendente perguntou: "Cancelo, então, os pães de queijo e...". Antes que ele terminasse de perguntar, Márcia soltou: "Não cancele nada! Acrescente! E, por favor, já que estamos aqui, quero aquele brigadeirão, que é a especialidade da casa". Ele anotou e se foi.

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