Vai Amanda de porta em porta em busca de uma janela de oportunidade.

Perdeu o emprego. Perdeu referenciais. Acostumada a acordar e ir para o trabalho. Acostumada a receber, no início do mês, o dinheiro que não era muito, mas que dava conta das contas que chegavam. Acostumada a preencher a rotina, estava, agora, Amanda, sem rumo.

Juliano perdeu a namorada. Anos de convivência e promessa de construção. A história desabou. As razões, Juliano profere palavras pouco doces ao amor que partiu. Está partido, Juliano. Entre o dormir e o acordar de noites intermináveis, a visão da ex-namorada com um outro. Um que era amigo seu. Um que dividia refeições e risos, juntos. Juntos estão eles agora, pensa Juliano, separado de seu amor.

Letícia perdeu o filho. Um acidente rasgou o tecido lindo que costuravam. O carro que o atropelou se foi. Foi também a alegria de Letícia. Arrumar o quarto, separar os pertences, reler antigos bilhetes. Fitar as tantas fotografias que davam a impressão de que ninguém retiraria daquelas vidas a necessária continuidade. O filho já não mais está. O colo está vazio. O coração, também.

Amanda, Juliano e Letícia pertencem ao gênero humano. São feitos de poções mágicas de amor e de sementes de todos os tipos de sentimentos. Brotam os que são cuidados. Fenecem os que são esquecidos. Regar a saudade, a compaixão, a simplicidade, a ternura vai iluminando semblantes e aconchegando visitadores que se aproximam. Regar a amargura, o ódio, a arrogância vai enfraquecendo os músculos e desestimulando o recomeçar.

A dor de Letícia, certamente, é a mais doída. Mas doem, também, as dores de Amanda e Juliano. E as outras dores em tantos outros que existem por aí. Viver sem dor não é possível. Viver sem surpresas também não. Mas o que há depois? Ou a desistência ou o recomeço. Ou a entrega ou a coragem.

É preciso coragem para recomeçar. Para acordar e pensar no filho que se foi e prosseguir sabendo que as estações de partida estão em todos os lugares independentemente da nossa vontade. Saber que uma demissão não põe fim a nossa vida. Saber que desilusões amorosas são feridas que o tempo é capaz de cicatrizar.

Há outros recomeços. Todos necessários. Vejam os que perderam tudo em uma guerra e recomeçaram. Ou os que venceram uma doença que partiu, mas que deixou limitações. Ou os que tiveram de mudar de cidade ou de país. Ou os que foram traídos ou enganados. Foi fácil? Cada um sabe o tamanho do seu calvário. Há caminhos que nos convidam a viver outras paisagens. O caminho interno é o mais importante deles. Percorrermos as veias abertas da dor e olharmos adiante. O que pulsa. O que nos relembra que estamos vivos e que é bom prosseguir. Depois das surpresas que não nos agradaram, podemos nos surpreender com o que nem imaginávamos que encontraríamos. Mas, para isso, é preciso prosseguir. Sempre. Com arte. Porque é assim que atraímos o sorriso e suas nobres razões.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 17/06/2018

Paulo e Fátima são namorados. Faz algum tempo. Conheceram-se em uma esquina em uma antiga viela na velha Portugal. Ele, brasileiro; ela, nascida no Porto. Viram-se pela primeira vez quando Paulo pedia uma informação. Ela o informou. Olharam-se com delicadeza e, depois de caminharem por algum tempo, resolveram não mais se despedir.

Paulo trabalha com turismo, Fátima é professora. O primeiro inverno na Europa não foi fácil para Paulo, carioca da Tijuca. Acostumado ao calor, precisou de roupas diferentes e do diferente jeito de Fátima para o necessário agasalhar.

Estavam agasalhados, os dois, no dia em que portugueses e brasileiros lotaram um tradicional teatro do Porto para aplaudir Chico Buarque de Holanda.

Chico começou sua Caravana na timidez habitual. O público foi ao delírio. Autor de letras que surpreendem pela diversidade de temas e de ditos poéticos, embaixador de um estilo de fazer da canção um grito de liberdade, de identidade, de amor. Conhece Chico a alma da mulher e a descreve com maestria. Percorre os sentimentos humanos de separação e de encontro, a gota d'água da desatenção ou o tempo da delicadeza.

A música, como tem de ser, foi tomando o ambiente. Mulheres e homens cantavam juntos. Chico sorria. Do seu jeito. De quem disfarça a genialidade. De quem compreende o ofício de levar sua Caravana além-mar.

Na terra de Camões e de Fernando Pessoa, Chico, um brasileiro, é ovacionado. Os gritos de gênio se misturam aos aplausos pedindo bis. Ele volta. Canta mais. Termina. O púbico quer ficar. Volta novamente e, novamente, emociona.

Foi no domingo passado a grande festa do Espírito Santo. Há muitas reflexões que podem ser continuadas em nosso olhar. Vamos a duas, daqueles fatos, daquele dia, daquele momento espiritual que não se encerra em uma semana, nem em um século. Há dois mil anos, estavam os que, com Jesus, aguardavam a chegada do Espírito Santo.

Duas reflexões? Vamos lá. A primeira sobre o perdão. A segunda sobre a comunhão.

Perdão? Os que leram um pouco da história dos últimos dias de Jesus devem se lembrar do discípulo que Ele chamou para que fosse a pedra angular da comunidade que dele haveria de nascer: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja". Pois bem, Pedro, antes do cantar do galo, negou Jesus três vezes. Exatamente isso, no momento em que Jesus mais precisava, Pedro chegou a dizer que sequer o conhecia. Poucos dias haviam se passado da morte de Jesus. E Pedro, naquele dia, estava lá, aguardando o Espírito Santo, com a mãe de Jesus. Maria poderia ter expulsado Pedro, poderia ter desabafado: "Você traiu meu filho!". Poderia ter dito: "Com você, eu não fico!". O que fez Maria? Apenas compreendeu. O medo de Pedro não fez dele um homem menor. A compreensão é irmã do perdão.

A outra reflexão é sobre as tantas línguas que estavam por lá. Havia gente de toda parte. E cada um falava uma língua. Mas quando os discípulos, cheios do Espírito Santo, começaram a falar, todos compreenderam o que eles diziam. Ninguém precisou traduzir nada. O Espírito respeitou cada um, com sua língua, com sua história, com seu jeito de ser, com suas imperfeições e seus medos. Porque é assim que deve ser. Nada de superioridade. Nada de raça pura. Nada de hegemonias. Somos todos sedentos de um fogo que nos ilumine e nos aqueça. Somos todos errantes, carentes de perdão, habitantes de medos tantos que nos levam a negar a quem mais amamos. Mas depois corrigimos. E, quando encontramos uma Maria em nossa espera, os erros se vão mais rapidamente.

Esperar o Espírito Santo não é apenas para um dia. É fazer dos dias presentes de Deus, razões especiais para existir.

Maria perdoou Pedro que perdoou a si mesmo. O auto perdão também não é simples. E partiram eles para a comunhão. Com línguas, raças, jeitos de ser e de viver diferentes, mas com a consciência de que aqueles dias existiram para que os dias de hoje pudessem ser melhores. Que sejam.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 27/05/2018

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