A leveza da amizade contrasta com os delírios da paixão. A paixão é exigência; a amizade, não. A paixão é entorpecente, a amizade é suave. Se não for suave, deixou de ser amizade. Se for utilitária, deixou de ser amizade. Há amizades que duram toda uma vida. Há outras em que se percebe a necessidade do partir.

Em um mundo de aduladores e interesseiros, urge relembrarmos o ditame bíblico, "quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro". Tesouro mais nobre do que os nobres metais preciosos, que se perdem com o tempo. A amizade, a verdadeira, permanece.

Há quem diga que a paixão causa sensações bioquímicas. Sensações que perseguimos para encontrar a felicidade. Sensações que buscamos em remédios e drogas, em lembranças e esquecimentos. Lembrar a primeira dose de algo que não fez bem, que me picou, que me viciou, lembrar os delírios do que nem existiu. Esquecer e dormir. Dormir uma noite de paz sem os solavancos dos pensamentos. São, talvez, essas as sensações que buscam os que se acompanham de tantos medicamentos. Não. Não sou conhecedor suficiente para falar de tranquilizantes ou de outras pílulas. Nem dos vícios químicos. Nem é esse o meu intento aqui. Quero falar da amizade. Do prazer puro que brota da biologia das relações ao saber que há um amigo que virá ao meu encontro para fazer nada. Apenas para estar comigo. Sem planos de planificar algum empreendimento, sem interesses de amealhar alguns bens, sem necessidade de prazeres carentes do que é matéria. Apenas nós, meu amigo e eu, e uma brisa que nos relembre de que é bom estarmos ali. Ali onde? No lugar sagrado do encontro. No lugar em que podemos tirar os sapatos ou os chinelos e pisarmos sem receios.

Vi, um dia desses, um homem com um molho de chaves tentando abrir uma porta. Passaram alguns segundos e ele insistia com a mesma chave. Eu olhava as outras chaves, ali, olhando para ele. Mas ele só via uma chave e só insistia com aquela chave, que, certamente, não era a chave certa para abrir aquela porta.

Lembrei-me de um homem chamado Teodoro,que tinha, também, um molho de chaves e que cuidava de uma Igreja. Cada chave abria uma porta. E ele sabia disso. Quando ele não ia, o molho de chaves ficava com a Sebastiana que também sabia que não adiantava insistir com uma chave que não abria aquela porta. Abria outras, mas não aquela.

Naquela época, também vi gente que, ao tentar com uma chave, desistia quando via que a porta não se abria. E eu ficava me perguntando por que não tentar com as outras chaves se há tantas no molho. Por que desistir na primeira tentativa fracassada? Por que não compreender que formato de fechadura exige uma chave. E que, mesmo que sejam muitas chaves, elas são diferentes e se prestam para abrir diferentes fechaduras. Há outra possibilidade também. Desistir da chave antes de saber se é ou não a chave certa. O que não é bom. Porque a pressa fará com que se tente uma chave após outra, e nenhuma delas abrirá a porta. O problema aí não é a chave, mas o jeito de usá-la. Acontece, muitas vezes, de alguém tentar abrir uma porta com uma chave e não conseguir, julgando ser a chave errada, e outra pessoa, usando a mesma chave, conseguir abrir.

Para se abrir uma porta, é preciso superar a teimosia e a impaciência. O teimoso insiste com a chave errada, e o impaciente não dá o tempo necessário para saber se é a chave certa ou errada.

O fato é que, na vida, haveremos de abrir muitas portas. E, para abri-las, precisaremos de muitas chaves. E de destreza. E de cuidado. Desistir no primeiro obstáculo demonstra pouco conhecimento da importância de abrir a porta. Insistir em demasia com a chave errada pode até prejudicar para sempre a fechadura. E a porta precisará ser arrombada, e arrombamentos podem machucar. E machucados nem sempre são fáceis de serem cicatrizados.

Teodoro e Sebastiana eram pessoas que viveram muito e que foram aprendendo, com o tempo, a colocar a chave certa, do jeito certo, e ver a porta se abrindo. Devem, naturalmente, ter errado muitas vezes. Os erros foram importantes para que percebessem a forma e o jeito certo de abrir a porta. O tempo deu a eles a sabedoria. O cuidado. A necessidade de se sentirem úteis abrindo portas. Quem sabe abrir também sabe fechar. Portas precisam ser fechadas. Ciclos vão se encerrando. A maturidade exige de nós outros posicionamentos. Quando escolhemos passar por uma porta, entramos em um novo cômodo e deixamos outro. Escolhas não são fáceis. Mas vivemos delas. Do que comemos à profissão que abraçamos. Do "sim" ou do "não" a um filho ao "sim" ou ao "não" aos nossos desejos. Teimosias atrapalham as nossas escolhas. Insistimos no erro da chave que não abre e desperdiçamos tempos preciosos. Passamos rapidamente de uma chave à outra sem saber, com certeza, se a que abandonamos não era a certa. E também desperdiçamos, porque o erro não estava na chave e, talvez ,demoremos para descobrir que o erro estava no nosso jeito.

Há muitos açodamentos. E a vida exige perícia, cautela, cuidado. Principalmente, quando lidamos com pessoas. Há muitos que dependem de nós e que esperam que estejamos com a chave certa e que a usemos do jeito certo para que uma nova porta se abra. E, com ela, um outro lugar. Um lugar desejado.

Um dia desses, um jovem, ao final de uma palestra, me disse que não suportava mais o seu trabalho. Mas que isso já havia se passado nos outros dois que ele havia abandonado. Fiquei apenas olhando. E ele prosseguiu tentando encontrar uma resposta se o erro estava no trabalho ou nele mesmo. Quando se tem dúvida já é uma possibilidade de acerto. Quem percebe a chave não abrindo e tem dúvida não abandona na primeira vez. Nem insisti em demasia com a mesma. O erro é da chave ou do meu jeito de abrir? O erro é do lugar em que estou ou é meu, de estar insatisfeito em qualquer espaço. Sabedoria não é privilégio apenas dos que vivem muito, mas é dom dos que querem abrir portas e encontrar o lugar correto.

Espero que o homem com o molho de chaves tenha a vontade de experimentar uma outra.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia-RJ) | Data: 06/08/2017

Li a reportagem sobre a reabertura do Hopi Hari. Fiquei feliz em saber que há espaço para matérias sobre parques e sobre brinquedos.

Longe de mim achar que temos de fechar os olhos para as graves crises que nos assolam. Precisamos de informações corretas e de opiniões edificantes. Precisamos de consciência política e de atitude corajosa frente aos erros tantos que maculam a imagem do nosso pais e a esperança que vive acanhada dentro de nós. Mas precisamos, também, de parques e de brinquedos. Precisamos de alegria. A alegria é um bom combustível para a inteligência. A criatividade que brota nas brincadeiras se estende nas várias formas de convivência e de solução de problemas.

Parques de diversão são um convite ao estar junto, ao rir, ao sentir e vencer o medo, ao se emocionar. É bonito de se ver os olhos ávidos de crianças que se lançam em cada atração. E de adultos que se permitem revisitar os melhores sentimentos da criança.

Já fui a muitos parques de diversão. Alguns pequenos, na minha cidade do interior. Ficava vendo a montagem do parque que funcionaria apenas durante a trezena de Santo Antônio, o Santo Padroeiro da cidade. E brincava o quanto podia. E, depois, via tudo sendo desmontado. A alegria partia um pouco e um pouco permanecia. Afinal, temos o humano poder da lembrança.

Menino ainda, fui a excursões nos parques de diversão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os dois, aliás, Playcenter e Tivoli Parque da Lagoa, já não existem mais. Mas me lembro das façanhas, dos medos, do correr cúmplice na chegada aos brinquedos, dos lanches, da ansiedade na ida e do cansaço da volta - éramos promessa, o tempo ainda não nos mostrava a sua face, a sua pressa.

Página 1 de 21

Publicidade