O saber e o sabor

Por Gabriel Chalita

Em sua obra denominada Livro sem fim, o educador Rubem Alves nos brinda com uma metáfora belíssima sobre a relação entre as palavras e os alimentos. Por meio do exemplo extraído de textos de escritores diversos e dos famosos quadros de Giuseppi Arcimboldo, Alves constrói sua argumentação de que o saber pode e deve ter sabor. Em um determinado momento da narrativa, o autor dispara: “Escrevo como quem cozinha”.

Na verdade, o texto de Alves nos convida a refletir sobre a verdadeira delícia que é o processo de aprendizado, de aquisição de saberes. Se analisarmos de forma mais detida, veremos que há uma sensação palatável quando degustamos o conhecimento, quando nos acostumamos ao sabor incomparável dos alimentos que sustentam e enchem de energia o nosso espírito. Tornamo-nos como que dependentes. Entregamo-nos a uma espécie de vício paradoxal – um vício às avessas porque extremamente revitalizador e positivo. O sabor proporcionado pelo saber pode ser comparado – guardadas as devidas proporções – ao pão descrito na ceia bíblica, porque é uma refeição abençoada e que marcará para sempre as nossas vidas. Um pão que nos oferece as condições necessárias para sermos, tal qual os apóstolos do Novo Testamento, propagadores de boas-novas. Quando mesclamos saber e sabor na mesma proporção, estamos ampliando o leque de possibilidades das palavras sorver, absorver e apreender. Juntas, elas passam a pertencer a uma mesma cadeia de significados e deixam de ser apenas verbos para reforçar também, um tempo verbal: o futuro. Um futuro promissor em que vemos, a cada dia, nossos sonhos sendo realizados, nossas esperanças sendo concretizadas, nossos desejos sendo atendidos por força de nossa própria capacidade de construir a vida que, um dia, projetamos num esboço quase primitivo. Apóstolos, missionários, mestres, educadores… Pessoas que vieram ao mundo para ser, justamente, o elo entre o saber e o sabor – dois verbetes imprescindíveis ao nosso desenvolvimento, à solidificação de nossa consciência crítica e de nossa cidadania. Nas salas de aula – ou fora delas – o saber e o sabor devem transitar faceiros, seduzindo os aprendizes para o interminável banquete propiciado pelo conhecimento. Um banquete composto por iguarias variadas… Um banquete que deve ser acessível a todos os educandos, a todas as nossas crianças e jovens… Um banquete que pode e deve ser preparado e servido em todos os ambientes voltados à propagação da educação e da cultura. A educação tem de ser um setor movido pela paixão, pelo entusiasmo e pela competência – qualidades essenciais à difusão do conhecimento. É papel do educador descobrir mecanismos capazes de tornar sua atividade mais atraente, mais dinâmica, mais apaixonante, mais sedutora, enfim. No dia-a-dia da sala de aula deve haver espaço para a criação, para a descoberta, para a renovação e para a reciclagem de idéias, posturas, conceitos e informações diversas. O binômio ensino-aprendizado deve ser aplicado à luz de uma ótica atraente, criativa, desafiadora, viva, bonita e eficaz, de modo que o educando sinta-se cativado e participe de maneira intensa das atividades da escola, sejam elas curriculares ou extracurriculares. Todas as disciplinas devem ser tratadas como extensões da vida do aluno, possibilitando a ele uma ampla visão de sua realidade e do meio em que vive. O aprendiz precisa se sentir estimulado para compreender o porquê de cada coisa, bem como a forma como esse conhecimento será empregado em sua vida. Professores devem ser artesãos, mestres na arte de misturar os ingredientes necessários para uma boa aula, ou melhor, para um banquete realmente inesquecível. Um banquete que permanecerá para sempre na memória dos aprendizes, como uma refeição indispensável ao seu crescimento e ao desenvolvimento de seu talento para viver – com saber e sabor – a aventura de gosto inigualável que é a vida. Uma boa semana a todos!

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