Melancolia

A melancolia é um estado da alma. Muito aberta essa definição? Há uma outra, de Victor Hugo, que diz que "a melancolia é a felicidade de estar triste". A felicidade de estar triste? Como é possível? É possível.

A melancolia é amiga da memória. Estou falando de uma melancolia que vive na casa dos românticos, não da melancolia estudo dos psiquiatras e outros pesquisadores da depressão e da mente humana.

A melancolia do coração viaja para o ontem e se apega ao que passou. Gostaria, talvez, de recuperar o que já não tem. Não tem. Fazemos suposições. Imaginamos verdades. Corroemo-nos em brigas refletindo sobre nossas escolhas.

A vida poderia ter sido diferente, se tivéssemos regado outras plantas? Quem sabe? As que temos são trabalhosas, mas são nossas. As que imaginamos talvez nunca tenham sido. Na imaginação, as flores não têm espinhos. Na imaginação, os jardins não têm pragas.

O passado não acontecido pode nos enganar. Na linda história de amor entre Dante e Beatriz, o imaginado é mais forte do que o realizado. Penélope esperou durante anos e anos pela volta de Ulisses, o seu grande amor. Valeu a pena? O desfecho é sublime, mas é um mito, apenas.

Histórias reais são mais complexas. Mas os mitos têm uma finalidade. Certamente. A melancolia, também. Envoltos em sentimentos queremos entender os sentimentos do outro. Houve amor ou apenas empolgação? Houve amor ou era uma estranha teimosia que nos preenchia? Será mesmo necessário saber o que o outro sentia?

Desprezamos as evidências e nos lambuzamos de suposições. Vez em quando, faz bem esse revisitar. Até para prosseguir. Até para compreender que o passado já está incorporado e que o amor amado, correspondido ou não, já cumpriu sua finalidade.

Em uma palestra, um jovem me perguntou se eu acreditava em amor único. Eu quis entender a razão da pergunta. Ele logo explicou que, se existisse, seria uma injustiça. "Pois, se eu amo alguém que não me ama, estou fadado ao fracasso". Certamente, ele estava amando e, certamente, a dor do amor estava ali. Amores jovens. Amores de todas as idades. Amores capazes de nos provar que estamos vivos.

Não respondi. Lancei outras perguntas e outras possibilidades. É preciso experimentar para compreender. Ou ao menos para sentir. Os sentimentos de amor ultrapassam as compreensões. O tempo tem o seu senhorio. Uma mulher que muito viveu falava do filho que não teve. Se tivesse experimentado a maternidade, a vida teria sido mais feliz? Quem sabe? Mães também perdem filhos. Mães também se entristecem com eles. Como seria o que não foi? Como saber? Não é possível voltar no tempo e escolher o que não se escolheu. Mas é possível voltar no tempo e celebrar o que se conquistou. Se conseguirmos esse feito, a melancolia vai partindo.

Os anos acumulados nos trouxeram momentos mágicos, não ver a felicidade nos enternecendo em dias calmos é negar à memória o direito de reconhecer. A melancolia se recolhe quando o futuro começa a exigir atenção. Não importa o tempo que ainda temos para viver. Certamente, outras escolhas nos desafiarão. Certamente, outros amores nos provarão que não há idade para entender o que Penélope entendeu ao tecer durante o dia e desfazer o seu tecido durante a noite para que sua coberta só estivesse pronta para um amor que merece toda a sua entrega. Existe amor único? Não sei. Só sei que essa vida é única e merece, entre melancolias e futuros, um presente de celebrações.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 17/12/2017

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