A valentia de Eduardo

Eduardo acabou de completar 7 anos. Com direito a festa, a música, a voluntários vestidos de personagens para entreter e dar alguma alegria ao menino.

Tudo em um hospital. Eduardo tem câncer e luta para reequilibrar o seu organismo e os seus pensamentos. A mãe, sempre presente, exerce a nobilíssima profissão de disfarçar a dor. Sorri o sorriso que encontra em algum esconderijo valente dentro dela e fala sobre o futuro como quem acredita nele. Acompanhados.

Há muitas crianças que conseguem vencer o embate e prosseguir. Eduardo tem um câncer mais agressivo. Não falam muito sobre isso. Não gastam tempo imaginando o tempo que resta. Apenas usufruir o tempo para viver, é isso o que combinaram sem precisar combinar.

Eduardo percebe as pausas da mãe. Por mais que uma cortina de esperança tente desfalcar a verdade, há algo que entra naquele quarto e que os põe a chorar. Algum dito mais carinhoso, algum incômodo na posição devido ao fato de o menino ficar deitado por muito tempo, alguma lembrança do que nunca aconteceu, não tiveram tempo para isso.

Dia desses, Eduardo soltou uma frase ao ser perguntado pela enfermeira se estava doendo, depois de tentativas tantas para encontrar uma veia na tão perfurada pele. Apesar da expressão dizer o contrário, ele foi enfático: "Os valentes suportam a dor". E sorriu o que pôde. E respirou fundo suportando tudo. A mãe também sorriu. E se levantou. E saiu do quarto como quem pede um vento milagroso, um solavanco em um sono, talvez. Poderia ser tudo um sonho, pensa ela com ela mesma. “Poderia acordar e ver o meu filho correndo e brincando e caindo e se lambuzando de alegria. Poderia fazer as contas para as formaturas, as festas, os centímetros de acréscimo a altura de um corpo menino. Poderia ser tudo isso”.

Enquanto Fernanda, a mãe, chora no corredor, Eduardo explica para enfermeira: "Tenho que ser forte por causa dela, ela não está aguentando, coitada". Alcançada a veia, a enfermeira o acaricia. Quantas histórias parecidas ela presencia! Quantas orações ela faz pedindo a cura, pedindo o direito de ampliação da jornada de vidas que começaram a desabrochar. Lembra que ouviu alguma vez que as borboletas vivem apenas um dia. Não tem certeza. Mas não sabe por que vem essa imagem. As asas. O voo. O enfeitar. E o partir.

As crianças enfeitam a vida da enfermeira. E partem. Ela olha o menino que continua a falar sobre a mãe: "Ela precisa se cuidar, está muito fraquinha". Eduardo está sem cabelos, a pele embranquecida, os olhos fundos, mas há algo que o faz, de fato, valente. Gosta de ouvir histórias e, quando está bem, gosta de contá-las. A avó de Eduardo, que faleceu o ano passado. passava as noites contando histórias ao menino. Ele viajava com os cenários que imaginava, agarrava o que lhe davam para permanecer com as personagens nascidas na sonoridade daquela voz. O menino, já doente, deu forças à mãe: "A vovó foi para um lugar lindo, mamãe. Cheio de vida. Cheio de contadores de histórias. Para onde, um dia, iremos também".

Talvez não tarde para Eduardo partir, talvez algo mude, talvez ele corra as maratonas sonhadas pela mãe... quem sabe o certo sobre o amanhã? O que se sabe é que hoje o menino é um valente, enfrentando a dor e cuidando da mãe, que já perdeu tanto e que teme perder o que de mais valioso tem, seu único filho.

Em uma casa, perto do hospital, um casal briga na decisão de onde passar as festas do fim de ano. Cada um quer uma coisa. O barulho das vozes espanta o som bonito do amor. Criar problemas onde problemas não há é uma das especialidades dos humanos.

A mãe de Eduardo volta ao quarto, encontra o menino com os olhos fechados. Não sabe se está dormindo ou sonhando com as histórias que gosta de ouvir e de viver. O que sabe é que há algo bom no sorriso discreto daquele valente.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 03/12/2017

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