Lenita trabalha na casa de Ângela há um bom tempo. Faz tudo. E gosta do que faz. Da limpeza à organização da roupa, da comida aos cuidados com os filhos, das compras à companhia para a mãe de Ângela, Vera.

Vera tem andando doente. Anda quase nada sem ajuda. Até pelo banho de Vera, Lenita se responsabiliza.

O marido de Ângela é um bom homem, na opinião de Lenita, mas muito frio com a mulher, a sogra e os filhos. "Timidez, talvez", pensa ela. Ângela, ao contrário, fala o tempo todo, e todo o tempo faz questão de demonstrar seu afeto aos seus.

Lenita também tem mãe, Eulália. Uma vez ao ano, organiza-se para ir visitá-la. Passa as férias no Nordeste revivendo os dias felizes em que toda a família vivia junto. Tem outras cinco irmãs. Duas moram na cidade em que mora a mãe, e as outras três moram, como ela, em lugares distantes por causa do trabalho.

As facilidades das novas tecnologias diminuíram as distâncias e amenizaram a saudade. Elas podem se ver enquanto conversam. A mãe também aprendeu. E assim, todas as noites, Lenita e Eulália se veem e se derramam em afeto.

Uma noite, estavam conversando, quando Lenita soou a campainha. Vera queria ir ao banheiro. Gentilmente estava Lenita com ela. Um dia, Ângela chegou em casa e viu Lenita com outro olhar. Foi só perguntar e os olhos de Lenita se encheram de lágrimas. A mãe de Lenita estava doente. Havia sido diagnosticada com câncer. Ângela ouviu e disse pouco. Câncer pode se curar e quando não cura demora muito para matar. Lenita ouviu sem muito reação. "Você esteve lá faz poucos meses, não vai inventar de me deixar sozinha, espera as férias e vai ver sua mãe; bem, o que temos para o jantar?" Lenita respondeu sobre o jantar. E, sobre o resto, nada lhe restou dizer.

Tudo limpo, foi para o quarto. Quando começou sua oração, ouviu a campainha. Foi logo atender Vera. E o fez, como sempre, com boa vontade.

Voltou para quarto. Ligou para a mãe. Choraram juntas. Acalmou a mãe. Disse que tudo ficaria bem. A mãe olhou nos olhos da filha, separadas a quilômetros e quilômetros de distância, e disse: "Como eu queria que você estivesse aqui". A filha nada disse, apenas sorriu.

Na cama, a dor da necessidade. Na cama, os pensamentos briguentos com o que disse a patroa. Ela não havia pedido nada. Por que da recusa? Porque tantas vezes ouviu que fazia parte da família quando Ângela precisava de alguma coisa.

Uma oração pedindo a Deus uma noite calma. Um sono amigo. E nada. O olhar da mãe ainda estava com ela, "Como eu queria que você estivesse aqui".

A noite não dormida despediu-se quando os afazeres reclamavam por ela. Café para a família toda, ajuda aos filhos de Ângela para que fossem à escola, banho em Vera. Depois seria o almoço para ser preparado, e todo o resto que o resto do dia lhe cobraria.

Poderia ir no final de semana ver a mãe. Apenas para abraçá-la, para chorar com ela os receios que chegaram, para dividir o amor necessário.

Faria isso. Com ou sem autorização. “Os tempos são outros”, pensava ela, “Não. Não vou desperdiçar a chance de amar. Minha mãe é meu maior amor”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 09/09/2018

Era o velório do pai. Foi de repente. Cassiano estava viajando e, quando voltou, o pai já agonizava em um hospital. Uma infecção qualquer que não sabiam explicar. Um sangramento no estômago. Um coração que resolveu parar de dizer.

E o pai se foi. E, com ele, as possibilidades de alguns ditos. O pai sempre foi um homem correto, cioso de suas responsabilidades. Na simplicidade da roça, aprendeu com o pai o que pôde. E cuidou do pai até o último instante. Amou-o. Respeitou-o. Não sabia muitos ditos elogiosos, mas sabia estar perto. E sabia respeitar. Dizia para si mesmo, com orgulho humilde, que nunca levantara a voz para o pai.

De seu jeito, tentou passar para os filhos os mesmos valores. Não estudou, mas deu estudo aos dois. Chorou nas duas formaturas. Emocionou-se abraçando a mulher. Economizou nas próprias roupas para vestir melhor os filhos. Para ele, uma bicicleta velha; para os dois, o que podia comprar de melhor.

Cassiano era o filho que mais discordava do pai. E debochava do irmão que trabalhava com o pai em uma barraca de coco e, à noite, cursava faculdade de direito. Cassiano gostava da vida boa. Gostava de viajar. Bebia mais do que o necessário, na opinião do pai. As horas de ausência de sono desperdiçadas, sabe-se lá onde eram outros pontos de divergência. O pai queria que Cassiano fizesse uma faculdade, que trabalhasse, que respeitasse as mulheres. E o filho ria arrogante da inferioridade do pai. Aliás, escondia ele que era filho de pai vendedor de coco. Quando perguntavam, desde muito tempo, respondia que era filho de empresário. A mãe tentava corrigir o filho. Mas não conseguia.

A última briga, antes da viagem de Cassiano, antes da súbita doença do pai, foi muito dura para toda a família. Era um jantar simples, e o pai falou de um conhecido que fora à barraca falar de um dinheiro que havia emprestado ao Cassiano. "Um dinheiro para você comprar uma cadeira de rodas para sua avó? Que vó é essa?" - o pai dizia indignado - "Eu não ensinei filho meu a mentir".

Isabel gosta do despertar do dia. É assim desde que se lembra. Ainda menina, via a mãe levantar cedo para dar conta de um dia intenso de trabalho. Em casa e na rua. O pai trabalhava à noite. As manhãs, na casa de Isabel, eram de silêncio. Cada um fazia o que tinha que fazer sem despertar o sono de João.

Tudo isso faz muito tempo. O pai morreu cedo. A mãe ainda vive, e vive com a mesma disposição para a felicidade. Mora com Isabel. Ambas viúvas. Os dois filhos de Isabel não moram longe, mas cada um tem sua casa, seus dilemas, suas intenções. Isabel cultiva a paz. Os sofrimentos não a embruteceram. E não foram poucos. As perdas encheram de lágrimas um tempo. O tempo que veio depois surpreendeu. Nada de acontecimentos extraordinários. Mas um cotidiano feliz. Uma festa de fim de ano regada a amigos, o casamento de um filho, o neto nascendo, um dia de sol na praia, um dia de chuva caçando sujeiras no feijão esparramado sobre a mesa. Ela e a mãe. E as lembranças. E o prazer de estarem ali.

As manhãs, na casa de Isabel, começam com o aroma do café. A mãe, quando sente, ajeita a penhoar que fica ao lado da cama e se levanta para comer com a filha. Gostam de gostar uma da outra. Tomam os remédios que precisam tomar. Comem sem pressa. E conversam. Como gostam de conversar essas duas! Falam sobre o passado sem melancolias. Revisitam os álbuns da memória, os momentos que construíram, as pessoas que se foram. Conversam sobre algum assunto do dia, se vai chover, se o sol estará forte, se o médico marcado vai mudar alguma coisa da dieta, se o time que torcem vai, enfim, ganhar. Comentam sobre as crianças. E se satisfazem com isso. Depois dão por encerrado o desejum.

Enquanto a mãe de Isabel lava as poucas louças que usaram, a filha limpa a casa no dia de limpar, lava a roupa no dia de lavar, rega as plantas. É uma casa simples, mas tem jardim. Há pássaros que cantam por ali. E elas gostam. Depois, é o almoço. Isabel gosta de cozinhar. A mãe ainda dá os seus palpites. Mas o que Jurema gosta mesmo é de costurar. Na velha máquina, ainda desfila a sua arte. À tarde, às vezes, passeiam, visitam os filhos de Isabel, vão à casa de algumas amigas. Tudo muito perto. Gostam do lugar em que vivem. Se precisam ir ao centro da cidade, planejam antes. Preferem horários em que as conduções não estejam tão lotadas. Em algumas noites, vão à reza; em outras, ficam em casa. Escolhem um filme e se divertem juntas. Comendo pipoca ou brigadeiro de colher.

Nos cômodos, fotos antigas. Nas gavetas, guardados de tempos que se foram. Mas há espaços para novos enfeites. A conversa de ontem era sobre a formatura de uma neta, da mais velha. Faltam poucos anos.

"Meus Deus, como o tempo passa! Ela não é mais uma meninota", diz Isabel. "E como passa!", confirma a mãe, olhando por cima dos óculos, enquanto dá uma pausa no cerzir de uma calça.

O cheiro da casa simples é de banho tomado. E, no ar, há um perfume de felicidade que encanta qualquer um que acha que tem que buscar longe. Isabel também gosta do despedir do dia. Antes de dormir, agradece.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 26/08/2018

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