A praia é sempre um convite para um mergulho nas delicadezas da natureza.O caminhar contemplativo, o molhar os pés, acompanhados de outros pés ou não, o preencher o corpo com o sal que sobe e desce, que vai e vem, o deitar para esquecer ou desejar, o que foi ruim ou o que há ainda de surpreender. É assim o mar, com os mistérios de tantas vidas que se encontram, democraticamente, em suas águas.

Quem são as pessoas que vão e vem e que aproveitam uma pausa para respirar? Deveria ser lindo. Inda mais em um dia de sol. Mas nem sempre é. Pessoas são mais complexas do que as águas salgadas ou do que as areias que se deixam banhar por elas.

Era, então, um dia de sol. E o movimento trazia ondas de pessoas pela rua, pela calçada, pelos quiosques de alimentação. Foi quando vi uma briga. Não dessas assustadoras de arrastões. Não das que envolvem armas de fogo.Eram dois namorados. Penso eu. Jovens, ainda. Ele parecia ter se excedido na bebida, ela parecia disposta a revidar à altura.

E começaram a gritar. Algumas crianças correram assustadas. Faziam tranquilamente seus castelos de areia quando ouviram a deselegância. Um senhor tentava intervir. Ela ameaçava bater nele com uma garrafa vazia de alguma bebida. Ele gritava alto dizendo que sabia que ela o traía. E usando palavras pouco adequadas para quem diz amar.

Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu.O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo. Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

Renata foi à casa de Marina. São amigas. Conheceram-se há muito tempo e, há muito tempo, têm o hábito de se visitarem.

Marina é professora de yoga. Gosta das práticas de meditação. Gosta da dança. Gosta de receber pessoas em sua casa para se alimentarem de prosa.

Renata é viúva. Vive do que o marido deixou. Vez ou outra, visita os filhos e os ajuda com os netos.

Marina preparou um foundue para receber a amiga. Renata chegou e quis saber logo o que teriam para jantar. Marina encheu o sorriso de satisfação e disse, no jeito que sabia, "Foudue". Renata a corrigiu. Explicou qual era a pronúncia correta. Quis saber se havia algo mais. Marina falou que havia preparado uma bela maionese. Renata meneou a cabeça e disse que não combinava. E, de sua contrariedade com a tal maionese, foram nascendo outras observações. "Não gosto muito de bossa nova, você poderia colocar outra música?", pediu Renata. E Marina foi logo mudando. "Pode ser música francesa, você gosta de Piaf?" Renata não disse nada, mas aquiesceu com a cabeça. "É esse queijo que você vai usar no fondue?" Marina não entendeu a contrariedade e perguntou: "Qual queijo eu deveria usar?" Renata fez uma expressão de tanto faz e não deu sequência ao assunto.

"Essa água é mineral?", perguntou Renata. "É do filtro de casa, ué, você já tomou várias vezes". Renata prossegue: "Tem coca zero?" Marina, prontamente, responde: "Tem, sim, vou pegar para você". "Prefiro guaraná". "Uhm, guaraná, eu não tenho". "Ah, não. Então deixa. Eu não estou com sede. Depois tomo em casa".

"Você não tem ar condicionado na sala, né?"

"Não tenho. O pé direito é alto. E está frio. Por que você quer ar condicionado?"

Renata olha para o nada. "Tem sobremesa?"

Marina se anima, "Eu fiz o pudim de leite que você adora". "Pudim não combina com fondue, tem alguma fruta?" "Tem, Renata, tem morango, tem laranja, tem pera, uva". "Gosto muito de mamão, mas não faço questão".

Marina foi buscando alguma paciência sobrevivente.

"Cansei dessa música francesa". Quando ouviu, Marina quis devolver com um "E eu cansei de você". Mas não disse nada.O jantar estava por terminar. Era melhor respirar e ouvir a bossa nova que silenciava as chateações, "Tristeza, por favor, vai embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim".

"Preciso ir embora", disse Renata se levantando. E prosseguiu, "Vai chover". Pela janela, Marina viu o céu estrelado e uma lua querendo crescer. "Vai chover, sim", concordou Marina já se despedindo.

Quando Renata se foi, ela olhou para o céu e agradeceu estar sozinha. A música prosseguia. O pudim estava delicioso. A água filtrada filtrava experiências ruins e dava refresco à noite fria.

Algumas amizades teimam em desrespeitar as delicadezas dos encontros. Outras teimam em aceitar. Por enquanto.

"Quero voltar àquela vida de alegria, quero de novo cantar".

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 166/09/2018

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