Era um dia como outro qualquer. E a noite chegou. E, com a noite, a dor lancinante de quem perdeu o seu amor. Celina estava em pedaços. Quem já passou por isso sabe o quanto dói .

Rogério resolveu partir. E partiu partindo os mais lindos sentimentos de Celina. No dia do desfecho, só ele falou. Encheu-a de elogios, culpou-se a si mesmo, contou histórias que mais pareciam preparadas para uma saída delicada. E saiu. Ela ficou ouvindo o que ele disse, mesmo depois de ele não mais estar. E ficou ouvindo o que ele falava antes. As promessas de eternidade. O caminhar junto. A construção de uma história que atravessaria as estações e se manteria firme até o final, até o entardecer do existir dos dois.

Rogério escolheu uma outra mulher. Não foi isso o que ele disse. Foi isso o que ela entendeu.O chegar em casa, depois da tal conversa, foi difícil. As fotos ainda decoravam o ontem. Cheias de risos e de poses. Cheias de encantamento. Anos e anos de histórias. E, em um dia como outro qualquer, tudo se finda.

Celina tomou banho. Chorou o choro doído que desidrata os apaixonados. Enxugou apenas o corpo, a alma permaneceu como quis. Quisera ela ter o poder de esquecer tudo, quisera ela acender a luz e encerrar a noite de uma vez por todas. A noite tem o seu tempo. Envolta em pensamentos, não adormeceu. Uma amiga sugeriu que ela tomasse algum remédio para dormir. Preferiu resistir. Choraria o tempo certo. E depois prosseguiria.

Alguns dias se passaram. Sem conseguir se controlar, enviou algumas mensagens. Ele as respondeu, educadamente. Mas nada de esperanças.

Renata foi à casa de Marina. São amigas. Conheceram-se há muito tempo e, há muito tempo, têm o hábito de se visitarem.

Marina é professora de yoga. Gosta das práticas de meditação. Gosta da dança. Gosta de receber pessoas em sua casa para se alimentarem de prosa.

Renata é viúva. Vive do que o marido deixou. Vez ou outra, visita os filhos e os ajuda com os netos.

Marina preparou um foundue para receber a amiga. Renata chegou e quis saber logo o que teriam para jantar. Marina encheu o sorriso de satisfação e disse, no jeito que sabia, "Foudue". Renata a corrigiu. Explicou qual era a pronúncia correta. Quis saber se havia algo mais. Marina falou que havia preparado uma bela maionese. Renata meneou a cabeça e disse que não combinava. E, de sua contrariedade com a tal maionese, foram nascendo outras observações. "Não gosto muito de bossa nova, você poderia colocar outra música?", pediu Renata. E Marina foi logo mudando. "Pode ser música francesa, você gosta de Piaf?" Renata não disse nada, mas aquiesceu com a cabeça. "É esse queijo que você vai usar no fondue?" Marina não entendeu a contrariedade e perguntou: "Qual queijo eu deveria usar?" Renata fez uma expressão de tanto faz e não deu sequência ao assunto.

"Essa água é mineral?", perguntou Renata. "É do filtro de casa, ué, você já tomou várias vezes". Renata prossegue: "Tem coca zero?" Marina, prontamente, responde: "Tem, sim, vou pegar para você". "Prefiro guaraná". "Uhm, guaraná, eu não tenho". "Ah, não. Então deixa. Eu não estou com sede. Depois tomo em casa".

"Você não tem ar condicionado na sala, né?"

"Não tenho. O pé direito é alto. E está frio. Por que você quer ar condicionado?"

Renata olha para o nada. "Tem sobremesa?"

Marina se anima, "Eu fiz o pudim de leite que você adora". "Pudim não combina com fondue, tem alguma fruta?" "Tem, Renata, tem morango, tem laranja, tem pera, uva". "Gosto muito de mamão, mas não faço questão".

Marina foi buscando alguma paciência sobrevivente.

"Cansei dessa música francesa". Quando ouviu, Marina quis devolver com um "E eu cansei de você". Mas não disse nada.O jantar estava por terminar. Era melhor respirar e ouvir a bossa nova que silenciava as chateações, "Tristeza, por favor, vai embora, minha alma que chora, está vendo o meu fim".

"Preciso ir embora", disse Renata se levantando. E prosseguiu, "Vai chover". Pela janela, Marina viu o céu estrelado e uma lua querendo crescer. "Vai chover, sim", concordou Marina já se despedindo.

Quando Renata se foi, ela olhou para o céu e agradeceu estar sozinha. A música prosseguia. O pudim estava delicioso. A água filtrada filtrava experiências ruins e dava refresco à noite fria.

Algumas amizades teimam em desrespeitar as delicadezas dos encontros. Outras teimam em aceitar. Por enquanto.

"Quero voltar àquela vida de alegria, quero de novo cantar".

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 166/09/2018

Lenita trabalha na casa de Ângela há um bom tempo. Faz tudo. E gosta do que faz. Da limpeza à organização da roupa, da comida aos cuidados com os filhos, das compras à companhia para a mãe de Ângela, Vera.

Vera tem andando doente. Anda quase nada sem ajuda. Até pelo banho de Vera, Lenita se responsabiliza.

O marido de Ângela é um bom homem, na opinião de Lenita, mas muito frio com a mulher, a sogra e os filhos. "Timidez, talvez", pensa ela. Ângela, ao contrário, fala o tempo todo, e todo o tempo faz questão de demonstrar seu afeto aos seus.

Lenita também tem mãe, Eulália. Uma vez ao ano, organiza-se para ir visitá-la. Passa as férias no Nordeste revivendo os dias felizes em que toda a família vivia junto. Tem outras cinco irmãs. Duas moram na cidade em que mora a mãe, e as outras três moram, como ela, em lugares distantes por causa do trabalho.

As facilidades das novas tecnologias diminuíram as distâncias e amenizaram a saudade. Elas podem se ver enquanto conversam. A mãe também aprendeu. E assim, todas as noites, Lenita e Eulália se veem e se derramam em afeto.

Uma noite, estavam conversando, quando Lenita soou a campainha. Vera queria ir ao banheiro. Gentilmente estava Lenita com ela. Um dia, Ângela chegou em casa e viu Lenita com outro olhar. Foi só perguntar e os olhos de Lenita se encheram de lágrimas. A mãe de Lenita estava doente. Havia sido diagnosticada com câncer. Ângela ouviu e disse pouco. Câncer pode se curar e quando não cura demora muito para matar. Lenita ouviu sem muito reação. "Você esteve lá faz poucos meses, não vai inventar de me deixar sozinha, espera as férias e vai ver sua mãe; bem, o que temos para o jantar?" Lenita respondeu sobre o jantar. E, sobre o resto, nada lhe restou dizer.

Tudo limpo, foi para o quarto. Quando começou sua oração, ouviu a campainha. Foi logo atender Vera. E o fez, como sempre, com boa vontade.

Voltou para quarto. Ligou para a mãe. Choraram juntas. Acalmou a mãe. Disse que tudo ficaria bem. A mãe olhou nos olhos da filha, separadas a quilômetros e quilômetros de distância, e disse: "Como eu queria que você estivesse aqui". A filha nada disse, apenas sorriu.

Na cama, a dor da necessidade. Na cama, os pensamentos briguentos com o que disse a patroa. Ela não havia pedido nada. Por que da recusa? Porque tantas vezes ouviu que fazia parte da família quando Ângela precisava de alguma coisa.

Uma oração pedindo a Deus uma noite calma. Um sono amigo. E nada. O olhar da mãe ainda estava com ela, "Como eu queria que você estivesse aqui".

A noite não dormida despediu-se quando os afazeres reclamavam por ela. Café para a família toda, ajuda aos filhos de Ângela para que fossem à escola, banho em Vera. Depois seria o almoço para ser preparado, e todo o resto que o resto do dia lhe cobraria.

Poderia ir no final de semana ver a mãe. Apenas para abraçá-la, para chorar com ela os receios que chegaram, para dividir o amor necessário.

Faria isso. Com ou sem autorização. “Os tempos são outros”, pensava ela, “Não. Não vou desperdiçar a chance de amar. Minha mãe é meu maior amor”.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 09/09/2018

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