Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser. Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é. Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas. Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

Dia 25, São Paulo completou 463 anos. Paulo foi o apóstolo que, antes, foi Saulo. Como Saulo, perseguiu os cristãos. Como Paulo, explicou o amor. O amor é paciente. Busca a justiça. A verdade. O amor não exclui ninguém. Paulo foi o apóstolo que levou a mensagem de Cristo aos outros povos, para mostrar que também eles poderiam compreender a beleza da sua mensagem.

A cidade de São Paulo ainda tem um grande desafio. Não excluir ninguém. Fazer com que a cidade das oportunidades seja a cidade das oportunidades para todos. Não é justo que uma criança dos Jardins tenha uma formação educacional de qualidade, que aprenda outros idiomas, que pratique esporte, que respire cultura, e uma criança do Jardim Ângela esteja excluída de todos esses benefícios na mesma cidade. Não é justo que um jovem da Vila Nova Conceição tenha um mercado de trabalho aberto, porque estudou em excelentes escolas, teve experiências internacionais, e um jovem de São Miguel Paulista não possa ter essas condições na mesma cidade. Não é justo que uma mulher no Morumbi consiga um tratamento de excelência na área da saúde, em alguns dos mel hores hospitais do mundo, e que uma outra mulher, que mora ali perto, em Paraisópolis, fique tanto tempo esperando para aliviar sua dor. A melhoria de uma cidade não é obra de uma pessoa, apenas. Há muitos que já contribuíram para que São Paulo melhorasse. Pessoas de bem que na área pública ou privada, que no trabalho voluntário ou nas ações de suas organizações, souberam compreender que a cidade tem que ser para todos. Não se pode esquecer, ainda, dos que mais sofrem violência. Dos pobres. Dos negros. Dos jovens. Dos que vivem distante das proteções tantas que foram criadas na cidade. Basta ver os túmulos do cemitério no Jardim São Luiz. Data de nascimento. Data de falecimento. Jovens. Vidas que tiveram o amanhã roubado.

Era uma criança, apenas. Disse-me, com autoridade, que fará 4 anos. Brevemente.

Estávamos em uma igreja. Missa dominical. Ela, no meu colo. Foi quando ela soltou: "Onde está Deus?"

Eu a abracei forte. Carinhosamente.

Antes da resposta, ela prosseguiu: "Deus está ali. Os homens malvados fizeram isso com ele". Ela me mostrou uma cruz. E Cristo pregado na cruz.

Eu quis saber quem havia dito isso a ela. Ela disse que o pai explicou e que foi além. Quando os homens são maus, eles continuam pregando Deus na cruz. E prosseguiu me dizendo que agora eu já sabia, já que ela havia me explicado onde estava Deus.

Eu apenas sorri e a abracei. E disse baixinho: "Se, quando os homens são maus, eles continuam pregando o Filho de Deus na cruz, quando eles abraçam - assim como nós -, eles tiram o Filho Dele da cruz".

"Então vamos ficar sempre abraçados", ela disse, sem demora. E emendou: "O que mais faz com que Ele fique feliz"?

"O que você acha, já que você que me explicou onde Ele está?"

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