Dias desses, conheci um cantor. Um cantor que canta com a alma da gente do interior. Que gosta dos compositores que compõem as canções contando uma história. A história "de uma casa no campo" em que eu possa dizer, inclusive, que "eu quero o silêncio das línguas cansadas" e "a esperança de óculos". Que cada um entenderá do seu jeito. Que desafiará algum pensamento. Um cantor que canta sobre o boi e a boiada. Sobre a palmeira na beira da estrada "onde foi cravado muito coração".

Pois bem, esse cantor era zootecnista. Trabalhava no campo e admirava as pessoas do campo. E as coisas do campo. Um dia, ele mudou de profissão. Agradeceu o que viveu e partiu em busca do barulho do seu coração. Foi ser cantor. Foi ser cantador. Foi cravar em muitos corações a beleza da sua voz.

Cláudio Lacerda é seu nome. O que viveu serviu de acúmulo e de inspiração. O que deixou serviu de desafio para novas buscas. A vida aprecia quem a aprecia. Quem tem a coragem de mudar. Quem tem o discernimento de saber onde fincar suas bandeiras.

As aulas estão recomeçando. Novos alunos. Novos desafios. Novas possibilidades.

Escolas se preparam para esses recomeços. Há eventos de formação de professores. Há reuniões, planejamentos. Há um fazer coletivo na expectativa de que tudo comece bem.

Gosto de viver essas experiências. Há anos tenho o privilégio de exercer o sagrado ofício do magistério. Gosto de conviver com professores. De ouvi-los, de trocar impressões, de – modestamente - motivá-los.

Foi em um desses eventos que ouvi dois relatos elucidativos. "Mais um ano, não é? Nossa, como as férias voaram! Já estou contando os dias para que tudo se acabe. É muito difícil, sabe, enfrentar uma sala de aula. Os alunos estão cada vez piores. Não há respeito algum. Nossa profissão está muito desvalorizada". A fala prosseguiu nesse tom. O desprazer de entrar em uma sala de aula e de, rotineiramente, fazer a mesma coisa. A falta de conexão com os alunos e com os seus sonhos. "Sonhos? Será? Eles não têm sonho nenhum. Têm é um vazio enorme, um desrespeito. Tenho pena deles. Aliás, tenho pena de mim por ter de enfrentá-los". Há alguma verdade nessas afirmações. É fato que se percebem alunos despreparados e desrespeitosos. Há muitos que vivem uma profunda alienação. Têm atitudes ora apáticas, ora agressivas. O dia a dia de um professor, certamente, não é tarefa das mais simples.

Uma amiga completou 80 anos. Uma festa agradável. Pessoas das mais diferentes idades circulavam. Entre bebidas e comidas, conversas. Falavam sobre a aniversariante e sobre o seu pacto com a felicidade. Em qualquer idade.

Perdeu ela um filho. Sofreu a inversão da lógica da vida ao ver, sem vida, o fruto do seu amor. Enterrou com dor e tentou compreender a despedida. Fácil não foi, mas ela prosseguiu.

Perdeu o marido. O companheiro que aplainou seus invernos. Que compreendeu suas mudanças. Que acolheu seu estilo livre de ser. Perdeu, certamente, muitos amigos. Alguns mestres que abriram a ela bibliotecas de ensinamentos que a ajudaram a ser quem é. Mas estava ali. Roupa nova. Cabelo feito. Maquiagem adequada. Passeando entre os seus. Dizeres bonitos. De vidas que se encontram e se renovam quando somos fortes.

Viver a felicidade em qualquer idade é desafio para os fortes. É isso. Para aqueles que compreendem a efemeridade da vida e o devir. O prosseguir. O curso das coisas. Encontros e despedidas. Mudanças. Os passos se tornam mais vagarosos, mas a mente se torna mais profunda. Há algo de nobre na maturidade. As ansiedades se acomodam um pouco. Há que se aprender com as experiências. As dores se repetem, mas já as conhecemos. Quando chegam, nós as recebemos com menos surpresas e aguardamos que partam. Que partam sem nos partir.

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