Drummond, há muito, anunciou que uma flor nasceu no asfalto, na rua, que furou o tédio, o nojo, a indiferença, talvez. Como ficar indiferente se as maiores cidades brasileiras se veem mergulhadas na dor? Há asfalto. E há, naturalmente, flor.

Onde estão as flores? Estão sendo mortas? Espancadas? Há sangue inocente no asfalto. De gente que se conhece pela luta, pela lida, pelo plantio de flores e de gente que só conhecem aqueles que têm o privilégio de morar ao lado, ou junto. Marielle era uma flor. Mulher guerreira, negra, vinda de lugares visitados pela dor, decidida a lutar pelos seus. Sua voz foi perturbadora. Indiferente, ela não ficaria jamais. Não faz parte dos que se acomodam. Roubaram-lhe o direito de florescer. E o jardim de uma das mais lindas cidades do mundo, o Rio de Janeiro, ficou mais triste. Há outras rosas que se vão todos os dias, antes do dia certo de ir. Vão porque se pisam nelas, vão porque as arrancam sem piedade alguma, vão porque incomodam os que gostam do asfalto sem flor.

Em São Paulo, maior cidade do país, o jardim também sangra. Professores foram espancados pelas autoridades do município. Mulheres e homens que gastam sua vida a cuidar de vidas, a preparar futuros, a semear novos jardins são recebidos como indesejados porque ousam divergir do que pensa o prefeito do município. Espancar um professor? Um, não, vários? Qual a justificativa? Qual a justificava de matar, de destruir a vida, de segregar, de odiar?

Dizem alguns especialistas que o chá de hibisco faz bem, se for consumido de forma moderada. É um termogênico, que melhora a circulação. Ajuda na digestão e impede parte da absorção da gordura pelo organismo. E há tantos outros argumentos que fazem com que algumas pessoas profetizem futuros mais magros.

Márcia e Suzana foram ao shopping. Fazer compras. Suzana é uma amiga e tanto. É presente como se faz necessário ao convívio da amizade. É compreensiva quando a situação assim o exige. E sabe ouvir, o que é fundamental para quem acredita no exercício do amor. Pois bem, Márcia gosta de falar. Fala sem economias sobre os mais variados assuntos. E agora, o assunto predileto é o tal chá de hibisco.

Antes das compras, Márcia cismou que, como vai perder uma quantidade impressionante de quilos, era prudente comprar roupas menores. Suzana argumentou que era melhor esperar o tal emagrecimento. E depois comprariam. Márcia disse que não. Que era impossível não se despedir dos quilos que a incomodavam depois da descoberta do século, o chá de hibisco.

Foram as duas. Antes das lojas, sentaram-se em um café cujo aroma convidava para uma prosa. O atendente veio sorridente tirar o pedido. Suzana pediu um café e uma água com gás. Márcia estranhou, "Só isso?". Suzana relembrou, "Acabamos de almoçar". Márcia olhou para o relógio e não comentou a explicação da amiga. "Quero dois pães de queijo, uma empadinha de palmito que só vocês sabem fazer e um café com adoçante". O moço já se preparava para ir resolver os pedidos, quando Márcia prosseguiu "Humm, me deu vontade de comer um pedaço pequeno de baguete com manteiga". Suzana apenas olhou. O atendente perguntou: "Cancelo, então, os pães de queijo e...". Antes que ele terminasse de perguntar, Márcia soltou: "Não cancele nada! Acrescente! E, por favor, já que estamos aqui, quero aquele brigadeirão, que é a especialidade da casa". Ele anotou e se foi.

Era um almoço entre amigos.

As conversas visitavam os mais variados temas.

As amizades preenchem de significado as nossas vidas. Alimentamo-nos da saudade e da presença, dos ditos e do silêncio, dos choros e das conquistas.

O amor é sempre um tema reconfortante.

David Neto pôs-se a falar da história dos seus avós, Elisa e David. Ele, 20 anos mais velho do que ela. Conheceram-se como se conheciam naquele tempo. Ele soube que havia uma família com uma moça em idade de casamento em uma cidade do interior. E foi até lá. Falou com o pai e conheceu a moça. Trocaram olhares, algum texto tímido e nada mais.

Naquela época, o pai decidia. Resolveu o pai de Elisa, entretanto, dar a ela o poder de escolha. Um relativo poder de escolha. Ou se casaria com David ou com um outro que chegaria do Líbano em alguns meses. Elisa escolheu David. Preferiu o que já havia visto a alguma surpresa. Casaram-se. Ele, aos 37 anos; ela, aos 17. E viveram a vida de amantes, de amigos, de companheiros, de peregrinos.

O mundo é cheio de subidas e descidas. Percorreram juntos. Contemplaram primaveras e invernos. E, quando menos perceberam, o tempo havia escapado de suas mãos. David morreu aos 82 anos. Elisa tinha 62. As despedidas são sempre incômodas, quando há amor. E amor era a refeição que os alimentava diuturnamente.

A vida prosseguiu e Elisa viveu muito. Despediu-se aos 96 anos. Foi quando David, o neto, engasgou-se com a emoção. "Sabe o que mais me impressionava, quando eu visitava a minha avó?" Perguntou e fez uma pausa. Olhou para o ontem, para os romantismos que surpreendiam. E prosseguiu: "Meu avô foi perdendo o cabelo. E começou a usar um boné. Um boné diferente dos de hoje. De tecido. Eu me lembro desse boné& quot;. Esfregou os olhos. "Minha avó, durante mais de 30 anos, deixava o boné do meu avô dormir ao seu lado na cama em que se amaram tantas vezes".

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