Era um sábado à noite. O diretor da peça, Tadeu Aguiar, estava na entrada, recebendo as pessoas. Mulheres e homens vinham chegando de lugares diferentes do Rio de Janeiro para assistir ao musical em homenagem a Bibi Ferreira.

Algumas senhoras comentavam sobre os dias difíceis da cidade. A violência parecia ser o ponto central das conversas. Cenas assustadoras compunham um palco de abandonos e malfeitos. A cidade mais linda do mundo estava prostrada. Seus filhos com medo de sair de casa. Quantas vidas interrompidas prematuramente, quantas lágrimas molhando as famílias enlutadas!

No palco do teatro, a cena era outra. A estrela Amanda Acosta é Bibi Ferreira. Impecável. Com ela, um elenco - que sabe o que faz - traz a história de uma inspiradora. Nascida Abigail, elevou-se a Bibi desde sempre. Filha de Procópio Ferreira, sofreu os preconceitos de uma elite que não compreendia o significado do teatro. Proibida de estudar em uma escola, tornou-se professora dos talentos. Deu vida a personagens, com profissionalismo e paixão. O palco sempre foi seu confidente. Dos amores partidos. Das histórias que gostou de contar. Dos desassossegos tantos que lapidam a alma de um artista. Ela é nossa artista maior. Sua voz fez renascer Piaf, Amália, Sinatra. Sua atuação ensinou que "qualquer desatenção pode ser a gota d'água". Fez mais. Cantou os excluídos em "My Fair Lady", o glamour em "Hello Dolly", a saudade em tangos espanhóis. Apresentou programas de televisão. Entrevistou com conteúdo e elegância. Viveu e vive a vida como um presente de Deus. Os fracassos, exigiu que partissem rapidamente. Nunca teve tempo para lamúrias. Os sucessos, recebeu-os com humildade. Generosa, dirigiu e incentivou tantos outros a prosseguir. A buscar o melhor em cada um deles.

A peça terminou. Que pena. Na plateia, os aplausos eram de gratidão por estarem ali. As senhoras que falavam sobre violência, antes do espetáculo, comentaram sobre a saudade de um outro Rio de Janeiro. Mais romântico, mais vagaroso, mais humano. As expressões franzidas deram espaço a sorrisos. Disse uma à outra: "Nossa, como eu estou leve, como esse musical me fez bem". Eis a resistência!

Havia uma penteadeira com algumas gavetas que guardavam algumas fotografias. Havia também alguns livros antigos e algumas agendas de papel. No chão, ao lado da penteadeira, algumas listas de telefone. Ana não sabia por que ainda não havia jogado fora. Eram acúmulos e acúmulos em uma casa pequena. “Pequena era a vida”, pensava ela. Tudo havia passado tão depressa. Olha alguns álbuns e se recorda de algumas datas. O pai era muito religioso. Livros de oração e de novenas também foram se acumulando. Joaquim já morrera há 20 anos. “Nossa!”, assusta-se ela. Ah, o tempo!

Vê livros antigos de antigas campanhas da fraternidade. Olha para o relógio e decide que vai à missa. O pai gostava de explicar o sentido da quarta-feira de cinzas. Iam todos. O pai, a mãe, os 2 irmãos e Ana. E voltavam com o sinal na testa.

Era ainda pequena quando o pai dizia que as cinzas significam a nossa fragilidade. "Um tombo, apenas, e nossa vida, aqui na terra, termina", era o exemplo que dava o pai. "Somos frágeis", insistia ele.

Recorda-se Ana de que a expressão que se usa nesses dias é algo como isso: "Lembra que és pó e ao pó retornarás". Ela não entendia direito a relação do pó com a fragilidade humana. Nem com a história do tombo. Quando criança, achava lindo tudo o que o pai dizia e sorria para ele. Na Quaresma, tempo que se inicia na quarta-feira de cinzas e que prepara a Páscoa, acostumavam-se a fazer algum tipo de sacrifício. Não comiam carne, não bebiam. E cada um escolhia algo de que gostava muito para deixar de comer por 40 dias. Ana escolhia o chocolate, depois se arrependia, mas seguia fazendo o tal do sacrifício. O pai explicava que era para sentir a falta que sentiam aqueles que não tinham alimentos. É disso que ela se lembra. Além de outros ensinamentos bonitos do pai.

O dia amanheceu preguiçoso. É domingo. É domingo de carnaval. Em um ponto alto da cidade, uma tal Maria engole o seu café com leite e pensa no desfile da sua escola de samba. Foram meses de preparação. Maria trabalha como costureira. E, desde sempre, desfila usando a fantasia que ela mesma produz. A cada ano sua escola conta uma história. Sua escola e, também, as outras.

Desfilam na avenida personagens, lugares, intenções. A música já está decorada. Sambar, ela sabe muito bem. O carnaval faz reviver, nas memórias de Maria, vidas que se cruzaram com a sua. Amores que já se foram. Decepções. Vibrações. Quanta história o seu barraco já presenciou. No morro, ela canta os sambas antigos.

O marido era baterista. Morreu dessas mortes que ainda existem aos montes. Bala perdida. Perdeu Maria, naquele dia, um pedaço significativo do seu coração. Era cedo demais para despedidas. Morreu ele em um dia ensolarado. Num mês de agosto. Véspera do dia dos pais. As duas filhas de Maria cresceram sem pai. A vida foi e é dura para elas. O tempo foi cimentando ressentimentos. E a alegria voltou a iluminar as manhãs daquele barraco. A memória do pai ainda vive ali. O nome do pai está no filho da filha mais velha de Maria. Ah, Maria tem seis netos. Vão todos juntos desfilar na escola de samba.

Maria gosta de costurar. Fala sozinha enquanto ouve o barulho da máquina quase nova. A velha ainda mora na casa em caso de necessidade ou apenas por uma recordação do tempo dos inícios. A nova, mais moderna, foi presente da segunda filha. As três mulheres viveram sozinhas durante algum tempo. Até que o tempo trouxe os seus maridos. Maria não quis se casar novamente. Teve alguns enredos breves, mas preferiu dormir apenas com suas lembranças. Gosta é de carnaval. Não é dada a bebidas. Não precisa delas para se alegrar. Insiste que gosta de cantar os sambas enredos de outros carnavais. Cada um contando uma história. Explica que acha lindo, em tão pouco tempo, dizer tanta coisa em uma avenida. Suas clientes levam roupas para serem arrumadas e sonhos para serem realizados. Costura Maria vestidos de noiva e rompe rasgos causados por quedas ocasionais. Costura botões e faz bainhas. Inventa modelos e ouve ideias. Fica ali entre panos e linhas se esmerando na arte de embelezar a vida.

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