Era um dos tantos feriados que há pelo ano. Em uma cidade do interior. Uma daquelas antigas, com ladeiras íngremes. Com ruas preenchidas por pesados paralelepípedos. Calçadas cheias de histórias de pés que conduziram encontros e despedidas. Durante décadas. Durante séculos. Viram crianças se tornando adultos. E adultos voltando a ser crianças. Com seus desejos permeados de equívocos. Com seus choros exagerados e, certamente, com muitos acertos.

Erik convidou alguns amigos. O passeio valia. A cidade estaria lotada, mas seria bom sentir o seu aroma. Havia flores, plantadas e regadas, em diferentes circunstâncias. E lá foram eles. Pegaram a estrada e chegaram. E demoraram para conseguir algum lugar para estacionar o carro. Ladeira aqui, ladeira ali. Pararam e, absortos pela beleza da cidade, caminharam sem preocupações de retorno. Tiraram fotos. Tomaram café. Comeram delícias típicas do local. Entraram e saíram de antigas construções. E chegaram ao momento de despedir. Era preciso voltar. E quem se lembrava de onde estava o carro?

Erik deu o seu palpite. Errado. Os outros dois tentaram. Erik mostrava-se arquiteto nos cálculos do espaço e do tempo que os levariam ao destino certo. E nada. E foram de um lado. Pensaram na mão e na contramão, no traçado feito anteriormente. No caminho que não dava opções para paradas. E nada. Um deles mostrou preocupação. O outro aliviou. "É feriado. Não estamos com nenhum compromisso. E estamos felizes".

Estar feliz faz toda diferença. As angústias incendeiam momentos como esses. Sempre haverá alguém a estampar desespero em sua fronte. Ou a reclamar de descuidos. Ou a praguejar sobre a infeliz ideia de estarem ali. Mas os três estavam felizes. E isso minimizava qualquer outro senão. Um sugeriu que pegassem um táxi e ficassem perambulando pela cidade até encontrar. O outro deu um outro palpite. A caminhada estava boa. Era melhor prosseguir passo a passo. Mesmo em ladeiras desafiadoras. E foram. E tiveram tempo de esquecer um pouco a procura para assistir ao pôr do sol. Que belo! As fotografias não registrariam tudo. Há imagens que só almas felizes são capazes de armazenar.

E viram um banco antigo. E sentaram. E prosseguiram a prosa. E um dos amigos insistiu no primeiro palpite. Voltaram, então. Brincaram de fazer apostas. Do tempo que demorariam para encontrar. Ao longe, estava ele, o carro. Os faróis pareciam sorrisos. A brincadeira havia chegado ao fim. Exaustos nas pernas e leves na alma, foram ao encontro, ao feliz encontro.

Na verdade, o feliz encontro veio antes. Quando se conheceram. Amizades emprestam suavidade ao calor das procuras. Estaremos sempre em busca de algo. Algo sempre será perdido e nos desafiará a ser encontrado. Com amigos, tudo fica mais fácil, mais prazeroso. Erik foi dirigindo e contando as histórias que sabia da velha cidade. Era uma nova amizade se espreguiçando. Que bom estar ali.

Por: Gabriel Chalita (fontes: Diário de S. Paulo e O Dia - RJ) | Data: 14/01/2018

Ao longe, Talita viu um brilho diferente vindo do chão. Do mesmo chão que sustentava o engatinhar de seu primeiro filho, André. Olhou, novamente, e, de pronto, levantou-se. O menino já estava se aproximando do que brilhava.

"Cacos de vidro, são cacos de vidro!", disse e repetiu Talita para Vinicius, seu esposo.

"O que foi, meu amor?", perguntou ele da cozinha.

"Cacos de vidro. Ele podia ter se cortado. É muito perigoso!".

A mãe de Talita estava com o marido na cozinha. Ouviu a gritaria e veio acudir.

"Mãe, alguém quebrou alguma coisa aqui. Imagine o André todo machucado, todo cortado. Imagine se ele tivesse colocado na boca, se estivesse engolido".

"Calma, minha filha, não aconteceu nada! Você conseguiu protegê-lo".

"É, mas há alguém descuidado nesta casa".

A mãe de Talita pegou o neto no colo e começou a brincar com ele. "André, na sua vida, muitos cacos de vidro estarão no seu caminho. Nem sempre sua mãe estará por perto. Algumas vezes você poderá se cortar". "Não diga isso, mãe, vai traumatizar o meu filho!".

A avó continuou a brincadeira. Teve ela quatro filhos, Também se assustou com as primeiras quedas. Também se agitou querendo estancar cada dor. Mas, aos poucos, foi compreendendo que os cacos de vidro se multiplicam com o passar dos tempos. Há algumas vacinas para dores mais agudas. Há ensinamentos que nos trazem precaução, proteção e ação. Isto porque mesmo os precavidos e protegidos se cortam. E, cortados, precisam agir. Ou isso ou o sangue jorrado ganhará gosto, e uma vida será esvaziada. Ou isso ou a entrega pálida diante da primeira dor. De qualquer dor.

A mãe de Talita, avó de André, quis aproveitar a ocasião para trazer algum frescor em vidas ainda frescas. É bom ver pais se preocupando com filhos. É bom que se debrucem sobre o que faz bem e sobre o que faz mal. É esta a arte da educação, ensinar desde cedo a gostar das coisas corretas e a desgostar do que é errado. E, além disso, despertar o indispensável sentimento da bravura. Não da rabugice. Não da violência. A bravura que desenha na mente dos Andrés a necessidade de ficar em pé e de, se cortado, prosseguir, sem se entregar ao sangue ou à dor.

Gratidão ao ano que se despede.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as águas e suas espumas sobem até as areias e limpam e refrescam e anunciam que, em instantes, voltarão. É o mar e o seu ir-e-vir. É o mar e os seus trazidos, deixando e apagando marcas.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as montanhas percebem a chegada do novo. O sol vai se espreguiçando e ganhando forças. A luz do que esverdeia desenha a esperança que inspirará os novos poetas. Há animais que barulham aqui e acolá. Cada um fazendo o som que sabe.

No amanhecer deste dia, deste último dia do ano, as grandes cidades, que não dormiram, acordam. Há movimentos ininterruptos de gentes e de ruídos. Há luzes que se acendem e há luzes que se apagam como nos vagalumes lá no campo, como nos brilhos que se vê nos clarões de sol e mar.

Uma mãe ensina ao filho que é preciso agradecer. Diz isso com a responsabilidade de quem amansa os erráticos que estão por perto para ferir. Agradecer ao que recebeu de presente, agradecer à passagem que foi dada, agradecer ao alimento que faz crescer.

Um paciente, que teve uma mãe que o ensinou a agradecer, agradece ao médico o alívio da dor, o cuidado generoso, o conhecimento despejado como forma de ação. Ora um padre na Igreja. Fala da gratidão como um valor dos que sabem que a vida é dom, que dom é presente, que presente se recebe e se agradece e se cuida. Cuida da vida de tantos a professora que agradece aos alunos pelo privilégio da troca, dos encontros, dos crescimentos comuns. Ensinar a aprender é um dos ramos mais bonitos que brotam na árvore da vida.

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