Quando pode, Isadora vai ao baile. Quando pode, porque tem ela o dever/prazer de cuidar dos netos. Tem ela as atribuições de abrir e fechar a Igreja e de preparar tudo para que os que buscam oração se sintam acolhidos.

Isadora já completou muitos anos de vida, anos intensos. Enterrou alguns dos seus. Chorou o inconformismo da perda. Em seu coração, Isadora gostaria de que tudo fosse eterno. A felicidade é uma estrela distante de ser compreendida se perdemos quem amamos.

Um filho se foi. O marido, também. E, também, os pais. E a única irmã. Mas há os filhos que restaram. Dois. Um casado e outro solteiro. O casado tem 5 filhos. Netos que enfeitam de aroma a árvore da vida de Isadora.

Ana Clara está com muita dor. Já foi ao posto de saúde do vilarejo em que mora várias vezes. Não sabem dizer de onde vem a vermelhidão, nem o inchaço, nem as saliências que tornam uma das pernas quase que inútil. Os remédios caseiros já foram usados, os prescritos pelo médico que vez ou outra aparece, também. E nada.

Junior é o esposo. É ele quem leva a mulher e dela cuida. É ele quem trabalha e os alimenta. Ana Clara teve que deixar o emprego. Já faz semanas que essa perna a mantém assim, desesperançada. O marido decidiu ir com ela à capital. Moram longe os dois. O acesso é de barco. O barco leva alguns dias. A passagem custa mais do que podem pagar. E tem ainda que levar algum dinheiro. E saber se serão atendidos ou não. Não há ninguém por lá, onde moram, que tenha algum recurso que possa ser oferecido, mesmo como empréstimo. Pelo menos ninguém com a generosidade necessária.

Há algum tempo, Junior realizou o sonho de comprar uma moto. Moto simples. Usada. A marca está, inclusive, apagada. Mas serve a moto para as distâncias necessárias do ir e vir. Junior é entregador. Ganha pouco, mas aprecia o que faz. Gosta de trabalhar na liberdade do vento em região tão quente. Cuida da moto como algo precioso para o sustento e para o prazer.

Pois bem, no jantar de ontem, tomaram a decisão. Junior vai vender a moto. É a única forma de conseguir algum dinheiro para cuidar do seu amor. Ana Clara ainda argumentou que esperasse um pouco. Quem sabe o novo remédio resolveria. Resolveu ele que o tempo da espera já passou. Que era preciso por fim àquela dor. Ana Clara disse ao marido que doeria nele ter de vender a moto. Ela sabe quanto foi difícil para ele comprar. Demorou 2 anos pagando, mês a mês, as prestações. Ele olhou para mulher e perguntou: "Você tem dúvida de onde dói mais? Ficar sem a moto ou saber da sua dor?

Fabiano comemorou há alguns dias seu aniversário de 80 anos. Recebeu dos seus filhos e da mulher um presente inesquecível. Um livro escrito por Pedro, o caçula da família. No livro, a trajetória do pai, seus sofrimentos e superações. A saída do interior e a chegada na capital. A faculdade tardia de Odontologia. O sonho realizado de trabalhar com a saúde, de devolver o sorriso às pessoas.

No consultório de Fabiano, havia sempre lugar para quem sofria com a dor ou com o preconceito. Dinheiro nunca foi o mais importante. Vindo da roça, de uma infância de privações, Fabiano abraçara a generosidade como uma companheira inseparável.

Em um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, estava ele olhando as mensagens que pululavam no seu celular. Em tempos de política, elas se alvoroçaram ainda mais. Leu uma, duas, três mensagens de uma mesma senhora, amiga antiga. Defensora de um candidato, enviava textos depreciando o outro candidato. Fabiano sempre foi um homem elegante e, na elegância, pescou as melhores palavras para dizer algo a amiga.

"Prefiro ler livros a ler algumas barbaridades que vêm chegando em meu celular", escreveu e enviou. A amiga respondeu de pronto "Ora, tenho que defender as minhas ideias". Fabiano resolveu gastar algum tempo e escolheu trechos que jamais poderiam ser verdadeiros nas mensagens enviadas pela amiga. "Você acredita que isso seja verdade?". Sem pausa, ela tascou: "Nem paro pra pensar nisso, só não quero que essa gente ganhe a eleição". Ele tentou: "Não é melhor enviar textos que destacam a qualidade do seu candidato em vez de mentiras sobre o outro?”. A amiga, sem pensar, já se posicionou: "Prefiro terminar a conversa aqui para não perder o amigo".

Fabiano se viu envolto em dúvidas sobre se agira corretamente ou não. Os ódios levam algum tempo para se racionalizarem. Nesses casos, não teria sido melhor nada responder? Mas como se as mentiras vão se propagando sem nenhum crivo de pensamento? Foi quando entrou sua esposa. Disse da amiga, dos textos, da mentira, do radicalismo. Disse do que fez. A mulher de Fabiano, farmacêutica de bairro, conversadeira de vocação, sorriu para o seu amor. Elogiou a prudência do homem com quem dividia a iluminadora tarefa de viver. E o convidou para comer um pão na chapa com manteiga lustrosa, e um queijo derretido, vindo da serra.

O café fumegante espalhava seu cheiro naquela cozinha cheia de prosas. Fabiano voltou ao tema das irracionalidades. Das ausências de argumentos verdadeiros. Das mentiras que marcam os desejos. Dos perigos dos radicalismos.A mulher concordou. Falou de um bate-boca na farmácia. A mentira chega sorrateira e fica. E expulsa o bom senso, o discernimento, a cordialidade.

Enquanto tomam o café e comem o pão, saboreiam o que têm. Um ao outro. Os olhares prosseguem românticos. Ele elogia o cabelo da esposa. Ela agradece com olhos de amor. Ele pergunta se ela tem algum tempo para descansarem antes dela voltar para a farmácia. Ela sorri repetindo a palavra: "descansarem...".

Quem tem o privilégio de amar alguém, em um entardecer de um dia que chegou depois de outro e antes de um que ainda virá, não perde tempo com impropérios em mensagens de Whatsapp.

Por: Gabriel Chalita (fonte: O Dia - RJ) | Data: 28/10/2018

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