Todo jovem estuda na Febem

Eles vivem no Facebook e SMS. Os adultos querem que saiam do celular ou do game para prestarem atenção aos estudos. E as escolas proíbem tudo que é divertido. Quanto desperdício de humanidade.

O slogan das escolas — “Cala a boca” e “Decora aí”— presta um profundo desserviço aos meninos e meninas. O que os adolescentes fazem enquanto ficam com aquela cara de UTI nas aulas é estudar a matéria mais importante para o resto de suas vidas: sociologia.

Nas redes sociais, aprendem Shakespeare: amor, ódio, inveja, estratégias de adaptação e rejeição tribal. Por que ela não quer sair comigo? Como é que ele deu um beijo e nunca mais ligou? Será que eu vou levar uma porrada daqueles grandões se eu responder à pergunta da professora?

Tudo de importante na humanidade —guerras, arte, empresas— tem na sua origem questões emocionais ou afetivas, a vasta maioria aprendida —ou não— na adolescência. Vigotsky sabia disto. Estamos distraindo o esforço sério com bobagens como trigonometria e a diferença entre mesosfera e litosfera.

Que escola dita forte ou de elite teria a coragem de reaplicar uma prova de, digamos, biologia, um ano depois, para o mesmo grupo de alunos? Sabe que vai ver nota 2 onde havia uma nota 9 um ano antes.

A Universidade de Chicago fez o estudo e concluiu: 96,7% de tudo que é passado como matéria na escola é esquecido por completo. Se tiver dúvida, cite três elementos da tabela periódica em ordem, explique o uso do verbo dicendi ou diferencie uma grande sesmaria de uma capitania hereditária. Você sabia tudo isso, de cor.

Estudos do cérebro mostram que há uma área, o córtex cingulado anterior rostral (RCZ em inglês), que é um desconfiômetro sofisticado. Ele avisa quando você não está agradando ou se identificando com a tribo. Durante quase toda a história do homem, não ser aceito significava a morte e hoje ainda é relevante, seja Abercrombie & Fitch ou Abre a Kombi e Fecha. Este RCZ se apura enormemente na adolescência e quem dá aula é o Twitter e o recreio.

Contrariar a necessidade antropológica dos adolescentes é o que os torna aborrecidos. (…)

O ensino médio é uma tragédia. Ora, não há porque eliminar aprendizado de conteúdo, e é fácil ensinar a partir do interesse real da meninada. Mas via cartilha, simulado e provinha —com as respostas na web— é muito obscurantismo. Hoje, é difícil saber, de fora, se um prédio abriga uma escola ou uma Febem [atual Fundação Casa]. Os adultos, portanto, estão tirando zero nessa matéria.

Fonte: jornal Folha de S.Paulo (por Ricardo Semler)

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