Ler a vida, ler o mundo, reescrever a esperança

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Em 2013 comemoramos 50 anos da marcante e simbólica experiência de Paulo Freire em Angicos, alfabetizando 300 pessoas em 40 dias, abrindo a oportunidade de o Brasil enfrentar, desde aquela época, os já 14 milhões de brasileiras e brasileiros analfabetos, números que, hoje, pasmem, (50 anos depois!) são praticamente os mesmos – isso, sem falarmos no número do analfabetismo funcional da leitura e da escrita, muito maior que isso, e que ainda assola o nosso país.


Como forma de contribuir para superar estes dados alarmantes da educação nacional é que se faz necessário a valorização da leitura em todos os seus significados e amplitudes. Registro aqui, para provocar nossa reflexão sobre o tema, três de suas variáveis: ler a vida, ler o mundo, reescrever a esperança. Ler é sempre um ato de conhecimento, de aprendizagem, de ensinamento, de crescimento pessoal e coletivo: a leitura nos inspira, alegra a nossa alma, resgata as nossas lembranças, provoca a nossa ira, causa-nos emoções, muda a nossa vida, acalma, aproxima-nos de outras pessoas e de outras culturas, fortalecendo-nos para a luta e para as transformações sociais que buscamos por meio da própria educação. Mas não basta apenas “ler”. Trata-se de ler, de tomar consciência da realidade lida e, com base nesse movimento, buscar transformar a realidade e a nós mesmos/as.


Como permanecemos em luta política contra a injustiça, seguimos também brigando por participação popular e social (Gadotti, 2013), bem como pelo direito ao acesso à leitura e à educação como direito fundamental. E arrisco-me a dizer que na atual conjuntura nacional e internacional, quem não souber ler e interpretar o que está se passando na atualidade, como processo e resultado de lutas políticas históricas, não será capaz de pronunciar a sua palavra grávida das mudanças necessárias para uma vida mais feliz para todas as pessoas. Nesse sentido, registro e reafirmo a necessidade de lermos a vida, o mundo e a esperança, reescrevendo-os sempre.

Ler a vida – trata-se de enxergar a vida que vivemos hoje, comparadas às condições que tínhamos anos atrás e de realizarmos agora os sonhos sonhados no passado, mas com coerência ética, estética, ideológica e política. E sempre praticarmos a “pedagogia da pergunta”: temos sido coerentes com os princípios e valores que defendemos outrora? Ou, ao contrário, desviamo-nos a tal ponto do nosso caminho que chegamos a negar, hoje, tudo o que defendemos ontem? Qual o sentido e o significado de estarmos hoje onde estamos? Como aproveitar as lições aprendidas no passado e como não perdermos a oportunidade de deixarmos as nossas “pegadas” na história, visando a um mundo mais justo e a uma vida mais plena e mais feliz para todas as pessoas, para todos os seres vivos e para todos os ecossistemas?


Como escreveu Paulo Freire, “não sou apenas objeto da História mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não apenas para me adaptar, mas para mudar”. (1997, pg. 85-85). Acrescente-se a isso a perspectiva da educação intertranscultural (Padilha 2007), que tem como ponto de partida as relações entre as pessoas e, destas, com todos os ecossistemas. Os conhecimentos da ciência, da arte e da política, por exemplo, compõem este cenário de aprendizagens complexas, transformadoras, com sentido e significado.

Ler o mundo – Ler e enxergar o mundo é mais do que olhar para ele na sua superfície: é estarmos permanente e estrategicamente atentos e atentas ao que se passa ao nosso lado e ao que está distante de nós, em profundidade. É superar nosso eventual daltonismo em relação às pessoas com quem convivemos e em relação à realidade que nos cerca e em todos os espaços sociais nos quais vivemos ou por onde passamos. Ler o mundo enquanto processo que envolve aprendizes e ensinantes de suas histórias recíprocas, ambos, vivendo e dividindo processos criadores.


Como também nos ensina Freire, “desde o começo, na prática democrática e crítica, a leitura do mundo e a leitura da palavra estão dinamicamente juntas. O comando da leitura e da escrita se dá a partir de palavras e de temas significativos à experiência comum dos alfabetizandos e não de palavras e de temas apenas ligados à experiência do educador”. (1997, pg. 29).

Trata-se de aprofundar o que já sabemos, conhecer, desvelar e interpretar diferentes dimensões da realidade – social, econômica, política, ética, estética, ambiental, sexual, cultural, etc. – e também do real – significando tudo o que existe dentro e fora da mente humana, o que inclui o que é concreto, o que é abstrato, o que é simbólico, o que é mitológico – descobrindo o que não sabemos e estando sensíveis e humildes para aprender, com o outro, que nós mesmos podemos mudar o rumo da nossa história pessoal quanto mais estivermos abertos às mudanças.

Vivemos no século 21, às vezes ainda impregnados de princípios e valores do século 19. Aí nos perguntamos: como podemos defender transformações se nos declaramos pessoas dialógicas e mudancistas, democráticas e sensíveis, mas se não formos capazes de mudar ou de estarmos abertos a novas concepções de vida, de educação, a novas visões de mundo e de natureza humana? Como influenciarmos mudanças se nos mantivermos nas nossas certezas, nos nossos preconceitos, na nossa pseudossabedoria e nas nossas inquestionáveis certezas? Quem já não ouviu alguém dizer “eu sou assim e não mudo”! Podemos observar: quanto mais certeza temos sobre algo, maior poderá ser o tamanho do nosso erro e, também, maior possivelmente será a nossa ignorância. Paulo Freire dizia, quando nos falava de seu pensamento complexo – sem se referir exatamente à complexidade, que não é impossível estarmos certos de alguma coisa. Impossível é estarmos absolutamente certos. (1997).

Reescrever a esperança - A esperança existe mas, diante de certos contextos e desafios, temos a impressão de que, ela própria, está em nós enfraquecida. Mas com determinação e com capacidade de ler a realidade, o real e de sonhar com um mundo melhor, é que novas esperanças se inscrevem em nossas vidas e no mundo em que vivemos. Renovados em nossas esperanças, com a força dos encontros e dos projetos dialógicos, democráticos e coletivos, percebemos que, aos poucos, retomamos a força para que outras educações e outros mundos também sejam reescritos. Segundo Paulo Freire, “Mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma Presença no mundo, com o mundo e com os outros. Presença que, reconhecendo a outra presença como um 'não eu' se reconhece como 'si própria'. Presença que pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, decide, que rompe. E é no domínio da decisão, da avaliação, da liberdade, da ruptura, da opção, que se instaura a necessidade da ética e se impõe a responsabilidade. A ética se torna inevitável e sua transgressão possível é um desvalor, jamais uma virtude”. (Freire, 1997, p. 20).


Ler a vida, ler o mundo e reescrever a esperança, significa tornar estas leituras presentes em todas as fases de nossas vidas, dentro e fora da escola em que vivemos, na qual estamos e atuamos como aprendentes e ensinantes. “A mudança do mundo implica a dialetização entre a denúncia da situação desumanizante e o anúncio de sua superação, no fundo, o nosso sonho”. (Idem, p. 88). Ler, interpretar e transformar o mundo são práticas de quem deseja construir, efetivamente, outros mundos e outras educações, possíveis, necessárias e urgentes. Com “paciência impaciente” e com “esperança sem espera”.

Fonte: Direcional Educador (Por Paulo Roberto Padilha)

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